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Espera pela vida
em: Especialidades
07/07/2015 09:00
O transplante de órgãos é a única perspectiva de recomeço para mais de 50 mil brasileiros.

Pode acontecer com qualquer um: certo dia você descobre ter um grave problema de saúde. A solução existe, mas é preciso aguardar. E muito. Você precisa de um transplante.

Segundo estatísticas, é mais provável engrossar o grupo dos cerca de 50 mil pacientes que aguardam um órgão do que se tornar um doador. A constatação da importância do procedimento para a saúde pública torna a discussão do tema na sociedade ainda mais fundamental.

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O tempo na fila de espera varia de acordo com o órgão e o local do País. A cidade de São Paulo, por exemplo, já teve por um período a fila zerada para transplante de córneas. Mas a realidade é bem diferente em outros casos, como para quem precisa de um novo pulmão.

Primeiro a se deteriorar na morte encefálica, o pulmão tem uma série de restrições para seu aproveitamento. Cerca de 80% dos órgãos doados são perdidos e a fila por um transplante é uma das mais demoradas, podendo ultrapassar dois anos.

Em linhas gerais para qualquer caso, a ordem da fila é de chegada, mas há necessidade de compatibilidade sanguínea e de medidas e muitos sucumbem à espera. Apesar do índice de doações ser mais alto do que se imagina – 78% das famílias consultadas doam – há problemas de logística causados pela falta de equipes de transplantes em diversos Estados.

A manutenção dos doadores em condições ideais pelas Unidades de Terapia Intensiva é outro entrave. Há ainda a carência de coordenadores de transplantes nas UTIs, condição necessária para a continuidade do procedimento de doação.

O resultado é um grande desperdício de órgãos e a perda de vidas que poderiam ser salvas. Estima-se que de cada seis a oito potenciais doadores, apenas um é notificado.

Porém, segundo a Lei nº 9.434/97, que regulamenta os transplantes no Brasil, é obrigatória a notificação de todos os casos de morte cerebral. A constatação da condição é feita por exames neurológicos que devem ser realizados por dois médicos diferentes.

Para melhorar o processo, entrou em vigor em 30 de outubro um conjunto de novas normas. Entre as principais mudanças estão o aumento dos valores pagos às equipes envolvidas no procedimento, a possibilidade de transplante entre portadores da mesma doença transmissível e a priorização para recebimento de órgãos de doadores da mesma idade para quem tem menos 18 anos.

Entre a espera e o recomeço

Respirando sem dificuldade e com aparência saudável, a assistente Kelly Fernandes da Cunha tem grandes planos. Transplantada após dois anos de espera, ela se prepara para ajudar quem aguarda por um pulmão.

Ao lado de Maria Helena Simeoni, esposa do paciente Ademir Simeoni, a assistente tenta criar uma casa de apoio a receptores de outros Estados que precisam se transferir para a cidade de São Paulo a fim de esperar a cirurgia.

Kelly ficou conhecida em todo Brasil por ter seu caso acompanhado pelo doutor Drauzio Varella em reportagem do programa Fantástico. Por tempos, ela viveu atrelada à máquina de oxigênio: “O transplante era a única alternativa, como é sempre para quem ingressa na fila. A espera é angustiante e desestabiliza sua vida”, recorda.

Passando pelo difícil estágio da espera há mais de um ano, Ademir, ex-metalúrgico, deseja voltar à vida ativa que tinha antes da doença degenerativa se manifestar. “A progressão dos sintomas é constante. E a espera, que no começo foi até tranquila, se torna cada dia mais angustiante, pois as tarefas mais simples são um desafio para mim”, conta.

Sua esposa, Maria Helena, reforça que a luta é mesmo contra o tempo: “Não podemos fazer nada enquanto esperamos. É muito desgastante. Por isto decidi me juntar à Kelly e ajudar outras famílias com o mesmo problema”.

A longa espera somada ao agravamento dos sintomas torna a situação psicológica dos pacientes bastante frágil. A ansiedade atinge também os familiares e a assistência psicológica é fundamental para passar pelo longo período.

Ademir lembra que o primeiro desafio é aceitar a necessidade do procedimento: “Encaro com muita coragem. Quero viver”, ressalta. Se vencer a negação é importante, aceitar o ciclo da vida é também imprescindível para que o receptor não tenha outros conflitos emocionais. “Entendo que a morte faz parte da vida. Doar uma parte de alguém que teve a vida ceifada por qualquer motivo é dar nova chance para a vida”, reflete Kelly.

Algum tempo depois da entrevista, após quase dois anos de espera, Ademir conseguiu seu novo pulmão. Recuperado, ele comemora a oportunidade da nova vida.

Corrente do bem

Além dos receptores, os transplantes de órgãos têm beneficiado indiretamente muito mais pessoas. Graças às pesquisas sobre o funcionamento do corpo humano, necessárias para garantir a sobrevivência dos pacientes transplantados e às diversas técnicas cirúrgicas desenvolvidas, várias áreas da medicina foram bastante aprimoradas. Cardiologia, imunologia, medicina intensiva, infectologia, entre outras, evoluíram consideravelmente.

Podem ser aproveitados: pulmões e parte do tecido pulmonar, fígado, córneas, coração, rins, medula, pâncreas, ossos, cartilagens, pele e vasos sanguíneos.

Pela legislação brasileira, a doação de órgãos só ocorre com consentimento da família, que deve assinar a autorização depois de constatada a morte encefálica. Se você deseja ser doador, deixe bem claro aos familiares sua vontade. 
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