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Nosso brado retumbante
em: Básica
10/09/2013 09:40
Qual estrofe do Hino Nacional vem antes: "um sonho intenso" ou "de amor eterno"? A hesitação nessa passagem acabou criando um arranjo vocálico extra-oficial para a canção-símbolo do País: o canto de todos no primeiro "Ó Pátria amada, idolatrada, salve, salve! Brasil" é seguido pelo murmúrio de uns poucos em "um sonho intenso, um raio vívido", com o retorno do coro geral em "de amor e de esperança..."

Mas, justiça seja feita: só depois de muita prática, alguém consegue cantar, impávido, esse colosso. Basta lembrar que, há alguns anos, o prêmio oferecido por um programa diário de televisão a quem conseguisse cantá-lo sem errar acumulou-se por nove meses.

Como boa parte da população desconhece o Hino, a tarefa de ensiná-lo às crianças sobra para as escolas que, muitas vezes, se limitam a fazer os pequenos decorarem os versos, sem nenhuma explicação sobre seu significado ou sobre conceitos como Pátria, nacionalidade e cidadania. Entretanto, no período que se seguiu à redemocratização do País (meados da década de 80 até o início da de 90), nem o decoreba era praticado e muitos jovens saíam dos colégios sem ter tido nenhum contato com o hino brasileiro.

Para compreender esta lacuna, é preciso voltar ainda um pouco mais no tempo. À época da ditadura, enquanto os filhos deste solo testemunhavam uma mãe nada gentil silenciar seus opositores nos porões dos órgãos de repressão, o governo militar fazia largo uso dos símbolos nacionais para impor sua concepção de patriotismo, traduzida pela máxima "Brasil, ame-o ou deixe-o". Por isso, todas as formas de representação da Pátria ficaram fortemente vinculadas ao regime ditatorial e, quando o País voltou a viver sob um sistema democrático, caíram em desuso.

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Várias letras, uma melodia
Embora tenha sido a última, esta não foi a única ocasião em que a canção-símbolo da Pátria foi associada a uma forma de governo. De acordo com A história dos Símbolos Nacionais (Milton Luz, Fundação da Biblioteca Nacional, in http://www.mv-brasil.org.br/brasil_hinoshistoria.html), Francisco Manuel da Silva compôs a primeira versão do Hino em 1822, para comemorar a independência do Brasil. Quando D. Pedro I abdicou, em 1831, a letra foi alterada para retratar o descontentamento popular em relação aos portugueses. Segundo historiadores, esta versão foi cantada pela primeira vez no dia em que o fundador do império brasileiro voltou para Portugal, em 13 de abril (mais tarde, esta data se tornaria o Dia do Hino Nacional Brasileiro).

A poesia foi modificada novamente para a coroação de D. Pedro II - as ofensas aos portugueses foram substituídas por elogios ao novo soberano - e agradou ao imperador-menino. Apesar de os versos terem sido abandonados, a melodia se popularizou como Hino do Império e esta ligação quase a condenou ao esquecimento quando o País se tornou uma república.

Para efetivar a ruptura com o regime anterior, o governo republicano aboliu a obra de Francisco Manuel da Silva e, na falta de outra para substituí-la, o hino oficial da França, A Marselhesa, foi adotado como nosso por alguns meses.

Em 1898, realizou-se um concurso para selecionar um novo hino. A música vencedora era de autoria do farmacêutico Ernesto Fernandes de Sousa, com poesia de Medeiros e Albuquerque. Não emplacou. Depois de muita polêmica, promoveu-se outro torneio, desta vez para escolher novo arranjo melódico para os versos de Medeiros e Albuquerque. O ganhador da disputa, maestro Leopoldo Augusto Miguez, teve de se contentar em ver seu trabalho transformar-se no Hino da Proclamação da República, pois tanto o povo quanto o próprio Mal. Deodoro da Fonseca preferiam a composição antiga, que acabou sendo oficializada sem letra.

Por fim, em 1909, o poeta Joaquim Osório Duque Estrada compôs novos versos para a música de Francisco Manuel da Silva, mas eles só se tornariam oficiais em 1922, quase um século depois de sua primeira execução pública. Além destes percalços históricos, existem outros detalhes curiosos relacionados ao Hino Nacional. Mas isso já é assunto para nossa próxima edição.
 
Pra começar
Antigamente, até mesmo aquele trecho orquestrado que antecede o "Ouviram do Ipiranga as margens plácidas." era cantado. Esta letra, pouco conhecida e nunca oficializada, tem sua autoria atribuída a Américo de Moura.
Espera o Brasil
Que todos cumprai
Com o vosso dever.
Eia avante, brasileiros,
Sempre avante!
Gravai com buril¹
Nos pátrios anais²
Do vosso poder.
Eia avante, brasileiros,
Sempre avante!
Servi o Brasil
Sem esmorecer,
Com ânimo audaz
Cumpri o dever,
Na guerra e na paz,
À sombra da lei,
À brisa gentil
O lábaro³ erguei
Do belo Brasil.
Eia sus4, oh sus!
 
Curiosidades
Música e poesia fazem do Hino Nacional Brasileiro um dos mais bonitos do mundo. Em 2002, para se ter uma ideia, o jornal britânico The guardian sugeriu que seus leitores acordassem mais cedo no dia do jogo entre as seleções brasileira e inglesa para apreciarem a canção, "um dos grandes legados do Brasil para a felicidade humana".

Os compositores deste legado, no entanto, nunca se conheceram pessoalmente. E nem poderiam, pois Francisco Manuel da Silva morreu cinco anos antes de Joaquim Osório Duque Estrada nascer.

Apesar de o autor da letra ter sido fiel à melodia composta por seu falecido parceiro, foi preciso adaptar a tonalidade da música para o canto. Com isso, a variante cantada do Hino passou a ser em fá maior, mas a instrumental foi mantida em si bemol maior.

A regra é clara
Além de especificar as tonalidades para orquestra ou canto, a Lei no 5.700/71 estipula que o Hino seja executado na íntegra quando tiver acompanhamento vocal, mas que a melodia não seja repetida nas execuções puramente orquestrais, pelo fato de as duas partes terem o mesmo arranjo musical. Isto explica porquê ele é tocado "pela metade" quando atletas brasileiros conquistam o lugar mais alto do pódio nas competições internacionais.

Se todos conhecessem esta lei, muitos equívocos teriam sido evitados no cenário esportivo do país. A regra é clara: o Hino será cantado ou apenas tocado de acordo com o cerimonial previsto para a ocasião. Como, antes dos jogos da seleção canarinho, geralmente se executa a variante instrumental, os jogadores deveriam se manter em posição de respeito, mas de boca fechada. Em outras palavras, a CBF pisou na bola em 1998, quando obrigou os craques a aprenderem a letra da música. Também no último campeonato paulista, a norma foi jogada para escanteio. Obrigados a executar o Hino antes das partidas, alguns clubes colocavam a gravação de uma versão cantada nos alto-falantes dos estádios e interrompiam-na ao fim da primeira parte, como se fosse uma execução orquestrada.

Sem entrar no mérito de que poucas coisas fazem o brasileiro querer exaltar a Pátria como o futebol, o exemplo dado nos gramados não promove um contato muito salutar entre a população e este símbolo nacional.

Criador e criatura
Enquanto a música do Hino permanece inalterada há quase dois séculos, sua letra já foi modificada várias vezes e a idéia de eliminá-la ou substituí-la por outra mais simples sempre encontra defensores. As críticas mais comuns referem-se às palavras difíceis e ao estilo tortuoso da poesia. Para entender melhor esta complexidade, porém, é preciso situá-la em seu contexto literário.

Osório Duque Estrada integrava a escola parnasiana, que cultuava o ideal da arte pela arte, ou seja, a arte vale por si própria e, portanto, seu único compromisso deve ser com a perfeição formal. Na busca do belo, os poetas valiam-se da linguagem erudita, das rimas raras, da metrificação perfeita e do hipérbato (inversão da ordem natural das palavras ou orações). Além de considerar a técnica empregada na escrita mais importante do que as idéias expressas, o parnasianismo valorizava a objetividade e a impessoalidade. Estes preceitos acabavam por se traduzir em uma poesia essencialmente descritiva sobre temas desvinculados da realidade social, política ou econômica do País.

Assim, a presença de todas estas características na letra do Hino não é mera coincidência. Entretanto, apesar de esbanjar erudição, o poema de Duque Estrada traz um vício de linguagem logo no segundo verso: a expressão "heróico o brado" forma o cacófato (termo impróprio, obsceno ou fora de contexto, formado pela sílaba final de uma palavra e pela inicial da seguinte) "herói cobrado".

Há ainda quem critique o poeta por ter utilizado um trecho da Canção do exílio ("Nossos bosques têm mais vida, / Nossa vida mais amores"), de Gonçalves Dias, na segunda parte do Hino. A acusação de plágio é maldosa, tanto porque a referência foi devidamente colocada entre aspas, como porque a poesia citada era de conhecimento geral. De toda forma, uma vez que o parnasianismo surgiu como um contraponto ao romantismo, a inclusão de versos românticos em um poema parnasiano é, para dizer o mínimo, algo inusitado.

Estes detalhes, no entanto, não diminuem a beleza da letra da canção-símbolo do País, que se torna mais compreensível quando suas frases são colocadas na seqüência natural. A apresentação do Hino na ordem direta será publicada no último artigo desta série, em nossa próxima edição.

Sem floreios
Os versos na ordem direta trazem sinônimos mais conhecidos no lugar das palavras menos usuais da letra oficial, além de alguns termos e expressões, colocados entre parênteses, para complementar o sentido da frase. Os dois casos apresentam-se sublinhados.
 
Versão oficial
Ouviram do Ipiranga as margens plácidas
De um povo heróico o brado retumbante,
E o sol da Liberdade, em raios fúlgidos,
Brilhou no céu da Pátria nesse instante.
Se o penhor desta igualdade
Conseguimos conquistar com braço forte,
Em teu seio, ó Liberdade,
Desafia o nosso peito a própria morte!
Ó Pátria amada,
Idolatrada,
Salve! Salve!
Brasil, um sonho intenso, um raio vívido
De amor e de esperança à terra desce,
Se em teu formoso céu, risonho e límpido,
A imagem do Cruzeiro resplandece.
Gigante pela própria natureza,
És belo, és forte, impávido colosso,
E o teu futuro espelha essa grandeza.
Terra adorada,
Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!
Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Pátria amada, Brasil!
Deitado eternamente em berço
esplêndido,
Ao som do mar e à luz do céu profundo,
Fulguras, ó Brasil, florão da América,
Iluminado ao sol do Novo Mundo!
Do que a terra mais garrida
Teus risonhos, lindos campos têm mais
flores;
"Nossos bosques têm mais vida,"
"Nossa vida" no teu seio "mais amores".
Ó Pátria amada.
Brasil, de amor eterno seja símbolo
O lábaro que ostentas estrelado,
E diga o verde-louro dessa flâmula
- Paz no futuro e glória no passado.
Mas, se ergues da justiça a clava forte,
Verás que um filho teu não foge à luta,
Nem teme, quem te adora, a própria morte.
Terra adorada.
Ordem direta
As margens tranquilas do (riacho do)
Ipiranga ouviram
grito forte de um povo heróico,
e o sol da liberdade brilhou, em
raios cintilantes,
no céu da Pátria nesse instante.
Se conseguimos conquistar
a garantia desta igualdade com braço forte,
o nosso peito desafia a própria morte
sob teu abrigo, ó Liberdade!
Salve! Salve!
Ó Pátria amada,
idolatrada!
Brasil, um sonho intenso, um raio vívido
de amor e de esperança desce à terra,
se a imagem do Cruzeiro
(a constelação Cruzeiro do Sulbrilha
em teu céu formoso, risonho e claro.
És belo, és forte, gigante destemido,
gigante pela própria natureza,
e o teu futuro espelha essa grandeza.
Brasil, ó Pátria amada,
Tu és (a) terra adorada
entre outras mil (terras).
És mãe gentil dos filhos deste solo,
Pátria amada, Brasil!
Ó Brasil, jóia preciosa da América,
(tu) cintilas iluminado ao sol
do Novo Mundo (as Américas),
deitado eternamente em berço esplêndido,
ao som do mar e à luz do céu profundo!
Teus campos risonhos (e) lindos
têm mais flores do que a terra mais vistosa;
"nossos bosques têm mais vida"
(do que os demais), (assim como)
"nossa vida" (tem) "mais amores" sob teu
abrigo
.
Salve! Salve!...
Brasil, (que) a bandeira estrelada
que exibes com orgulho
seja símbolo de amor eterno,
e (que) o verde-louro dessa bandeira diga:
- Paz no futuro e glória no passado.
Mas, se ergues a arma forte da justiça
(se entrares em guerra em busca de justiça),
verás que um filho teu não foge à luta
(e) quem te adora não teme nem a própria
morte.
Brasil, ó Pátria amada...

1 Instrumento utilizado para gravar em metal, madeira, pedra.
2 Registro de fatos históricos.
3 Estandarte utilizado pelos exércitos romanos, bandeira.
4 Coragem, ânimo.  
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